Há 15 anos: Perdemos James Hunt

Há 15 anos no dia de hoje, James Hunt faleceu em sua casa, em Londres, por causa de um ataque cardíaco, à jovem idade de 45 anos. Depois de ter presenciado, da beira da pista, sua ascensão de James “the shunt” Hunt ao Campeão Mundial de 1976, foi somente no Grand Prix de San Marino de 1993 que finalmente tive o prazer de encontrar James em pessoa.


Literalmente, não se fazem mais pilotos como James Hunt. Um playboy loiro e alto, sempre explorando os limites nas pistas, vivendo a vida a mil fora delas, no verdadeiro estilo de um roqueiro, mais do que de um esportista. Era o tipo do cara que apareceria num jantar de gala, com regra de traje obrigatório, vestindo nada mais que uma camiseta e uma calça jeans…e conseguindo entrar. Mais de uma vez. Chocar o estabelecido parecia ser um de seus hobbies.

Nos anos setenta, o macacão de um piloto estava aos poucos se tornando no que hoje é percebido: uma ferramenta de marketing para os patrocinadores. Enquanto outros pilotos vendiam cada centímetro quadrado de tecido em suas vestimentas de trabalho, James achou mais divertido ter um bordado que dizia “Sexo – o café da manhã dos campeões”. Ele também gostava de beber para inebriar-se e fumava como se não houvesse amanhã – uma média de 60 cigarros por dia. E, já perto do fim da carreira, admitia até mesmo que fumava erva. “Eu gosto, me relaxa”, diria com um sorriso.

Ele também tinha uma personalidade um tanto ‘de pavio curto’. Sempre teve. Uma disputa com o oponente Dave Morgan numa prova de Fórmula 3 em Crystal Palace em 1970 terminou nos guard-rails e a luta continuou ao lado da pista. Na prova decisiva de 1976 em Fuji ele saiu de seu McLaren desejando socar o chefe de equipe Teddy Mayer pelo que – ele achava – parecia ser um erro de estratégia que potencialmente lhe teria custado o titulo. Mas não era, James tinha assegurado o título e Teddy safou-se uma vez mais. E teve o incidente no GP do Canadá de 1977, quando James saiu fora na brita e queria retornar aos pits atravessando a pista. Má sorte do disciplinado fiscal que tentou puxar James para trás do guard-rail…e levou um soco nas fuças ao invés.

Apelidado “Hunt the Shunt” em sua época selvagem na Fórmula 3, Hunt construiu para si uma ótima reputação por sua pilotagem para a independente equipe de F1 de Lord Hesketh e vencer o Grand Prix da Holanda de 1975 em Zandvoort abriu as portas na McLaren para substituir Emerson Fittipaldi , em 1976. Hunt levou o desafio do título até a prova final em Monte Fuji, e um terceiro lugar sob chuva torrencial o ergueu ao ápice de sua carreira esportiva – se tornando Campeão Mundial de Fórmula 1. Ele iria vencer somente mais três Grands Prix no ano seguinte, sua carreira então iniciando um mergulho em meio a rumores de abuso de álcool, tabaco e drogas. Assinou um acordo com Walter Wolf para 1979 mas no dia seguinte ao GP de Mônaco decidiu se retirar das competições.

Tem sido dito por mais de uma vez que o acidente de Ronnie Peterson em Monza no ano anterior, que terminou com o sueco morrendo no hospital como consequência, tirou de James sua outrora destemida pilotagem. E que ele estaria em dúvida se tudo aquilo valeria o risco, mesmo quando tinha assinado seu novo acordo. Após alguns desastres financeiros ele aceitou a oferta para se tornar comentarista de TV para a BBC, acontecendo de disputar pelo microfone com Murray Walker nas transmissões, isso mais de uma vez. Tem essa deliciosa historieta sobre o GP da Bélgica de 1988, onde James aparentemente saiu para celebrar seus 40 anos levando para seu quarto duas garotas que tinha chavecado no paddock. Infelizmente não conseguiu chegar à cabine de transmissão em tempo, e o pessoal na BBC soltou algo sobre um “problema gástrico”, esperando que a verdadeira história nunca circulasse.

Embora não fosse muito mais do que um educado bate-papo durante um Espresso que tive com James no paddock do Autodromo Enzo e Dino Ferrari em Imola, James ainda tinha aquele ar de um garotão de praia que era piloto de corridas. Apesar de, então, eu ser assegurado por meus veteranos colegas Mike Doodson e Gerald Donaldson, que James tinha se tornado um bocado mais maduro do que jamais fora em seus dias como piloto. Estava comprometido com a artista Helen Dyson e mudado de estilo de vida, parado de fumar e beber, e, pela primeira vez em sua vida, considerando se firmar com alguém e sossegar. Ele fez a proposta a Helen dois meses depois, justo um dia antes de falecer.
Eu fiquei chocado ao saber que James tinha morrido de um ataque fulminante do coração. Tendo o encontrado pouco antes, parecia incrível.
Justo quando o antigo garoto selvagem parecia ter descoberto em si uma pessoa mais feliz e mais sossegada, o destino tinha um plano diferente para James Wallis Simon Hunt.

About these ads

9 thoughts on “Há 15 anos: Perdemos James Hunt

  1. Muito bacana esse resumo, Bauer. Eu conheço e me amarro muito nessa foto dele com a coroa de louros pendurada no carro, cigarro e cerveja nas mãos e uma gatinha ao lado.

  2. Pode-se dizer que o James Hunt é o que denominamos “o último dos moicanos”, uma safra de pilotos que se distinguiam no braço e na irreverência. Grandes dias aqueles da década de 70 e 80…

  3. O resumo é adorável, Mario. De facto, ele vem de um tempo que não volta mais, com um estilo de vida que se calhar, só Raikonnen o têm agora. A do “Sexo – o Pequeno Almoço dos Campeões” deve ser das coisas mais divertidas que jamais vi no macacão de um piloto, somente possivel num sitio como a Hesketh…

    E os comentários coloridos com o “Merry” Walker faziam com que os Domingos à tarde em Inglaterra fossem divertidos.

    James, temos saudades tuas!

  4. Sabem o que me deixa indignado? O James é reverenciado como piloto de verdade por todos os jornalistas. Vê se ALGUÉM (nisto incluo os ingleses) fez uma homenagem no 15º aniversário da morte dele…

    Acabei fazendo hoje esta homenagem no site da Motorsport Aktuell e não escondi a minha insatisfação com os colegas, que vivem reclamando da geração de pilotos das ultimas décadas e clamando a falta de personagens coloridos como o James Hunt. Custava prestar homenagem então…?

Kommentar verfassen

Trage deine Daten unten ein oder klicke ein Icon um dich einzuloggen:

WordPress.com-Logo

Du kommentierst mit Deinem WordPress.com-Konto. Abmelden / Ändern )

Twitter-Bild

Du kommentierst mit Deinem Twitter-Konto. Abmelden / Ändern )

Facebook-Foto

Du kommentierst mit Deinem Facebook-Konto. Abmelden / Ändern )

Google+ photo

Du kommentierst mit Deinem Google+-Konto. Abmelden / Ändern )

Verbinde mit %s